domingo, agosto 15, 2010

Beto Santos, Com A Boca No Trombone


Pedrinho Cavalléro e Beto Santos no Festival de Limeira(SP) em 2008.


Beto Santos é um dos grandes amigos que fiz nos festivais pelo Brasil. Paulista de Guarulhos, esse jornalista, produtor, ator, cantor e compositor, junta todas as artes no palco para encantar platéias desses brasis. Lendo esse texto dele, acabei assinando em baixo e transcrevendo pra vcs.


VOCÊ SABE O QUE É BOLA?


Trila o apito... Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo... Assim diria um antigo narrador e locutor esportivo de uma certa emissora de rádio Brasileira, líder de audiência no horário do futebol lá naqueles idos das décadas de 60, 70 e 80.

A minha, a sua, a nossa grande seleção de futebol entra em campo e, o sublime momento da enganação se prepara para rolar nos gramados de todo o mundo... Em todos os gramados e campos futebolísticos do nosso Brasil, a enganação sempre entra, é sempre a mesma, sempre se manifesta, mas o povo parece gostar de ser enganado por essa gente. Gente que brinca com nós humildes torcedores.

Futebol no Brasil meus caros leitores, mesmo que muitos de vocês não acreditem, é um incrível, impressionante e eterno execício de enganação... Ninguém é atleta verdadeiramente por dom e também não se obriga a viver intimamente pelo seu dom. Esperam tão somente aquele momento todo especial e inefável de pegar o seu passaporte e se mandar do Brasil para outras terras de enganações futebolísticas mais ousadas onde a grana é mais portentosa. Ninguém pode ser milhonário, vivendo numa terra onde política é meio e forma de se ganhar a vida...

Na verdade, o futebol aqui na terra brazuca é prática da grana... Enquanto isso, o povo gasta com ingressos, uniformes de seu time do coração e outros tantos souvenirs pra completar a enganação.

Não, não, não... Desculpem meus caros... Não era sobre esta bola que eu iria aqui comentar. Falou em bola, a grande maioria dos incautos ou quem sabe boa parte do povo brasileiro, logo pensa no seu timinho do coração. Pensa num domingão de tarde, um estádio de futebol lotado, tomado de algumas gentes e um tanto de vândalos indomáveis... Aquelas cenas indecifráveis de ovações, ululações, gritarias, conflitos, patifarias e parafernálias gritantes, que por muitas e tantas vezes se transformam e culminam em quebra quebra e show de pancadarias, dependendo do resultado da partida.

Por muitas vezes, trens, ônibus, metrôs e outros patrimônios públicos são destruídos em nome da arte de torcer. Tudo isso para manter em efervescência o nobre título de Pátria de chuteiras ou País do futebol. E ainda somos obrigados a ouvir os nossos meninos do mundo do futebol dizendo que colocam o coração na ponta da chuteira... Há, há, há... Quem tem e põe o coração é o tal trabalhador Zé Mané, que acorda cedo e brinca ainda de comprar ingressos e ser um fiel torcedor dessa raça. Oh! Tenham dó, por favor...


Mas volto então a frisar, como eu estava dizendo, apaguem tudo, não é sobre Jabulani, nem sobre as bolas que rolam nos gramados de nossos mal intencionados campeonatos armadinhos, pra gringo ver. Quero novamente perguntar a todos vocês: Vocês sabem o que é bola? Vocês sabem o que é PAGAR bola? Quantos de vocês conhecem a bola?

Pois bem, bola é uma espécie de jabá... Não existe para o campo da música o famoso JABACULÊ, que de forma contrátil, se transformou em “jabá”? Aquele mesmo malfadado e hediondo jabá, que se costumam cobrar nas emissoras de rádio. Jabá que se oportuniza para poder tocar as nossas musiquinhas. E, como também podem ver, existem os pagamentos de “bolas” em outros tantos seguimentos da vida social. Vocês sabiam disso? Vocês tem conhecimento da prática da bola? Uma certa bola que não rebola e nem rola em gramados? É desta bola que vos falo. A bola que rola com cheiro de corrupção.


Resolvi escrever sobre a bola, mais especificamente o pagamento de bolas, porque encontrei em num evento recentemente, um músico e amigo das antigas, que pra poder tocar num show de Casa de Cultura, teve que pagar bola pro produtor da casa.

Alguns meses atrás, também fiquei muito feliz por encontrar uma amiga, super talentosa, estudiosa das artes, que saiu e desistiu da área artística pelo inconformismo e se formou numa faculdade de Administração Hospitalar. Pior de tudo, que ela também me relatou sobre essa questão de pagamento de bola por alguns profissionais da área médica. Uma área que nem imaginei que pudesse ocorrer. Como podem ver se correr o bicho pega e se ficar o bicho come...

Ela me disse e relatou, que muitas vezes, um médico pra conseguir atender e entrar para o rol do convênio da empresa tal, tem que pagar bola. Não acreditei quando ouvi aquilo. Mas depois, ela me passando a coisa mais detalhadamente, descobri que é impossível um médico não aderir a bola, se não quiser trabalhar a ganhar mais... Ou você é apenas um profissional médico que atende convênios medíocres e sem prestígio, ou paga bola pra poder entrar no time das grandes empresas de convênios médicos. Absurdo...


Lembro-me também, acerca de muitos anos atrás, por volta do início dos anos oitenta, sobre um escândalo ocorrido na Secretaria de Estado da Cultura envolvendo o nome de um grande secretário. Inclusive o dito cujo, salafrário, picareta e esfarabuto foi exonerado naquela oportunidade... Ou sei lá se o delinquente cultural pediu demissão, nem me lembro mais...

Segundo consta, ele contratou um artista por um cachet XIS e o dito cujo produtor do artista passou uma Nota Fiscal de valor IPSILON, superfaturado, como pagamento de bola. Foi a primeira vez que ouvi falar do pagamento de bola na áre da cultura. Mas cultura que se prese, não consegue sobreviver sem rolar uma bola aqui, uma outra bola ali e outras tantas bolas acolá. E, se cutucarmos a onça com uma vara meio que curta, descobriremos que tem muita areia no caldo e nesse angu de caroço. Que país é esse?


Também de forma ultrajante, lembro-me de um amigo, que pra conseguir tocar em um determinado espaço cultural da Zona Leste, teve que dar para um dos programadores da Casa de Cultura, algumas cartelas de passes de ônibus. Vocês se lembram dos passes que eram usados em ônibus, antes de existir catraca eletrônica? Pois bem, o meu amigo músico se deu ao desplante de pagar como bola pra poder atuar como artista, algumas cartelas de passes de ônibus. É o fim da picada. Tem gente que aceita ser comprado por poucas míseras moedas. O importante é que se tenha algo pra dar. E, em tempos de tantas concorrências, cada um dá o que tem. Alguns dão votos em troca de pão, macarrão e outras coisas que o valham. E, quem dá e oferece para as aves de rapina e miseráveis do poder, empresta e ADEUS...


Assim sendo, hoje, em plena era tecnológica, num mundo moderno, onde o tal Ministério Público com toda a sua força, Promotores Públicos eficientes, a nossa forte PF, a gigantesca OAB, e outras tantas letrinhas juntas e conjugadas que tentam nos convencer de uma falsa moralidade... O que podemos pensar? Pra onde vai o mundo da bola? Pra onde irão os meandros da corrupção passiva no Brasil? Até onde seremos enganados, apequenados e ficaremos à mercê desta bandidagem?

Se eu fosse o Kid Moringueira, eu perguntaria aos nobres e tantos amigos companheiros das artes e da vida cotidiana: Afinal de contas, devemos confiar no poder da polícia ou do bandido? O crime está cada vez mais organizado e nós, cidadãos comuns à merce das bolas e falcatruas. A corrupção começa a fazer parte do processo oficial da nossa vida cotidiana em quase todas as esferas. Isso é grave...

OH! Pátria amada, idolatrada salve-se e salvem-nos...


Beto Santos – compositor e fazedor de músicas

betosantos2006@gmail.com

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